Combustão

 Lampejo.

Pisca, pisca.

Explode,

Pega fogo,

Cinzas, fumaça

Falta de ar

Fadiga diafragmática 

Preciso, só, relaxar

Vá!

Fico aqui para fugir

Preciso, só, respirar

Junto perco fôlego? 

Fumaça

Fuja!

Fumaça!

Em partes

 Caminhar partida, 

Pedalar partida,

Completamente partida

Destroços de um coração

De um ventre

Que esperava a vida

O parto dela foi a partida da outra

Pequena, bela, perfeita vida


Ao mesmo tempo

Em outra parte

Outro parte

O coração de outra pequena


Ressuscitar é possível? 

Colar o que foi partido? 

Reparto...

Repartir é compartilhar?

Ou 

Repartir, é partir de novo? 


Um dos sentidos

 De todos os sentidos possíveis

Norte, Sul, Leste, Oeste

O olfato é um fato

Me guia no sentido

Da tua pele

Teu pescoço

Teu suor


É um fato

Gravado nas mais profundas memórias

Alucinado na distância


Sentir seu cheiro

Me faz respirar a plenos pulmões

Nessa plenitude

Me guia no sentido

Do vivente

Do vivido

Do vívido


Teu cheiro é gota de vida

O olfato é um fato! 




Escassez

 Caramba, que triste! 

Três palavras e dois  sinais

Três palavras!!!

Uma vírgula

,

E um ponto de exclamação

!

Nosso amor não virou uma canção

Foi mais um tropeçāo


Caramba, que susto! 

Achei que tão pouco bastasse

No vórtice do meu caos 

Não entendi foi nada

Nada

Nada mesmo

Nada a oferecer

No vórtice do meu caos


Vírgula e exclamação

não são suficientes! 

Fez falta a interrogação

?

A porta de entrada pro outro

Pro novo

Pro de fora

Exclamação, exclamação, exclamação...

!!!

Dentro de mim, estou cheio de mim, ele disse, perdido no vórtice de seu caos, as interrogações ficaram excluidas

Cheio de si, não houve espeço para ela entrar

Ponto final

.


Não me diga

 Não!!!

Näo me diga: 

eu te amo!

Não me escreva uma carta...

Não me escreva um poema

Não me cante uma canção de amor...


Toda declaração vazia

Ausente das marcas da ação

É sentida como ofensa

Ofensa ao sensível,

Ofensa ao inteligível


Não me diga

Sem fazê-lo












Telegrama

Como envio essa carta para Bariloche?
Posso enviar por telegrama?
Precisa ser rápido!
Pois tive que parir esse poema
Para que ele parasse de ser recitado toda noite
Repetidamente! 
Como contrações pré-natais
Como ecos ressoantes entre as paredes que envolvem meu ser

Você sabe que esse poema é sobre nós
Você sente a cada vez que eu sinto:
Essa seria uma noite daquelas!
Quando a gente se encontrava
já em pensamento
E sincronicamente
Ligávamos:
- Essa vai ser uma noite daquelas!

Você sabe!
Só quando nos juntamos
ocupamos o lugar de
Homem e Mulher 
Mais gostosos do mundo

Nossos corpos foram feitos um para outro
Sua dúvida é ridícula e covarde!
Não!
Eu não aceitaria passar pelos seus testes de realidade
Você beliscou o próprio braço?
É claro que você estava acordado
Ou a felicidade não pode ser real?
Seu erro?
Prudência ou covardia?

Não entendeu a velocidade da minha mudança
Anunciada um dia após
você dizer que me ama
que me ama!
Que amor?!
Escrito e registrado em garranchos ilegíveis
Nunca confessados senão pelo registro da letra corrida em papel
ou em tela

Eu sei do meu pedido,
E ele continua de pé
Não responda esse telegrama!
Sua cozinha planejada precisa da sua companhia.


Péssima Memória

Se minha memória é boa?
Nem um pouco!
Ela é má
Cruel

É sádica comigo,
Gosta de me fazer esquecer
O que deveria ser lembrado
E se diverte vendo o resultado
Das cenas que ela faz persistir...

Ela joga comigo
E ri da minha cara

Como é possível?!
Não lembrar e
Não esquecer
Esse é seu jogo favorito...

O carro se abre, sorrisos
Cabelo cortado, rente
Sua camisa florida, fundo negro,
Bermuda
A forma como você estava vestida
Até mesmo o sapato,
Que também havia sido comentado
Os assuntos tratados...
O caminhar de volta para casa
O momento de pausa da caminhada
O beijo, os suspiros profundos,
E os dedos aconchegados na nuca raspada
Ah! Os dedos aconchegados..
O abraço!
A conversa que seguiu por horas
A bermuda dos Simpsons
Iara
Pedro
Laura
Bolas
Pelos
Acerola
Limão
E
Gengibre
Mojito
Samba
Entrega
Medo
Medo
Medo
Closura
Fuga
De quem?
Quem foi o primeiro?

A memória não tem todas as respostas
Que gostaria
Por isso,
Ela zomba de mim,
Me maltrata
Pois ainda não consigo achar as peças
Do quebra-cabeça que ela tanta montar.
Memória má!





Projeções

Ele era curto para o inverno
E quente para o verão
De que servia esse vestido?
Melhor despido

Me despido em praça pública
Despida em praça pública
"Eu me apaixonei pela pessoa errada"
Eles cantam
Eu acompanho
Sem vergonha
Despida
Despido
Vestido

Quem é que tem coragem de arrancar a camisa?
Quem é que não tem medo de se resfriar?
Só quem confia no calor, no colo oferecido.
Só quem consegue se jogar.

Ele era curto
Curto para o inverno
E quente, quente demais para o verão
Ele era um olograma do imaginário
Alguns diriam: faz de conta que era um e.t.
Desse vestido, me despido
Despida,
Amém

Elos-gios

Que o costume de belas palavras tenha seu nascimento remetido às palavras ditas aos mortos queridos
Parece ter a ver com a forma como alguns se utilizam das mesmas
Palavras bonitas, repetidas e ressaltadas, para esconder a morte de algo
Talvez, a morte da própria percepção da beleza em todas as formas possíveis

Os elogios desse tipo, por-favor!
Dispenso
Quando emanados carregam o pesar
da inautenticidade

Me interessam apenas as belas palavras que escorrem pela boca,
Que nos saltam à língua,
Por vazarem o que se sente
Há nesses, e apenas nesses, elogios
sentido
também em toda sua forma
E esses, e somente esses
constroem elos,
sentidos

Nus

Ele me desnuda!
Quando me cobre
de beijos

E me veste suavemente,
Com um manto
de suor e saliva